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O que (não) nos diz Gran Torino
Tiquinho Oliveira
Grand Torino, novo filme do cada vez melhor Clint Eastwood, é excelente síntese e metáfora para a atual crise que abalou os Estados Zunidos e causou um verdadeiro terremoto em todo o mundo.
No filme, o ator que já foi uma das maiores estrelas do áureo faroeste americano, símbolo de dureza, masculinidade e virilidade, interpreta um quase anti-herói solitário e amargurado pelas perdas que se lhe apresentam no fim da vida. Seu personagem, Walt Kowalski (seria mero acaso o prenome americano e o sobrenome com sotaque russo?), encontra-se desiludido e incrédulo diante das mudanças pelas quais passou: o bairro onde sempre viveu é agora reduto de imigrantes, sobretudo orientais; ele mesmo, um ex-combatente na Guerra da Coréia, tornou-se um velho doente e atormentado pelas culpas e lembranças dos campos de batalha; o filho, que assim como o pai é morador de Detroit, polo decadente de montadoras americanas, ganha a vida vendendo carros japoneses.
O único fiapo de resistência concreta face a essas mudanças é o possante Gran Torino 1972 que Kowalski zelosamente conserva na garagem. O carro pode nos remeter a uma América poderosa, reluzente e inabalável que hoje, parece-nos, não admite que esses adjetivos façam parte do passado, e não mais do presente. Apesar da(s) decadência(s) que o cerca(m), o velho durão e ranzinza, que também questiona e debocha da existência de Deus, tem a oportunidade de redimir suas culpas através da convivência com seus vizinhos, imigrantes chineses membros da comunidade hmong.
O difícil – e por vezes cômico – trato diário entre essas duas culturas tão distintas ao mesmo tempo confunde e ilumina a vida do truculento Kowalski, que aos poucos aceita a resignação de assistir ao declínio do império americano, para citar o filme francês de Denys Arcand.
Mais uma vez, pode-se transpor as cenas para o campo da denotação/metáfora para a conotação/realidade: como o mundo, perdido que está, sobrevive ao conflito, ora silencioso, ora declarado, entre duas potências, uma decadente e outra ascendente? Seja no campo político, econômico, cultural ou social, o que de fato tem a nos dizer e a nos brindar essa troca de comando paradigmático que se nos apresenta?
Além de todas essas questões, Clint Eastwood volta a cutucar a Igreja com cajado curto (já havia feito algo semelhante, sob outra ótica, em Menina de Ouro), ela que, maliciosa ou covarde, se esforça em demonstrar que está nos bastidores dos acontecimentos, tentando mediá-los, quando em boa medida está não no proscênio, mas no centro do palco.
Gran Torino é despretensioso em sua forma porém contundente no conteúdo. Trata-se da mais cruel e mais bonita metáfora que a sétima arte produziu nestes tempos de mudança que nos trouxeram Obama, China, Ipod, Bin Laden, mp4, ecstasy e muita vertigem. Ainda é cedo para decretarmos o fim dos Estados Zunidos do velho e truculento Kowalski, mas a incerteza para onde nos joga sua agonia nos permite confundir aquele país com uma nuvem ao sabor do vento, prestes a se desmanchar.
O início das mudanças já foi apontado por Clint Eastwood, que não nos diz, nem é esse seu papel, qual será nosso futuro. E é essa, talvez, a maior qualidade de Grand Torino. Resta a nós, ao mesmo tempo platéia e diretores que somos, construir o gran finale.